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Inteligência Artificial

Seria TI o novo departamento de informática?

Seria TI o novo departamento de informática?

Thiago Otto

Eu ouvi essa frase de uma executiva que eu mentoro e cujo time inteiro — liderança e equipe — passa por letramento executivo em IA comigo. A pergunta me parou. Porque eu já vinha notando o movimento há meses, mas ainda não tinha a frase certa para nomeá-lo.

“Departamento de informática” é aquela área que não acompanhou a mudança do próprio tempo. Que negou a velocidade da reinvenção. Que negou o avanço do nome que carregava. Ela não desapareceu por decreto: ela virou nota de rodapé enquanto o resto da empresa aprendia a fazer sozinho o que só ela sabia fazer.

E o risco de a mesma coisa acontecer com TI não é uma intuição minha, nem da minha bolha.
Em 2022, o Gartner previu que em 2026 pelo menos 80% dos usuários de ferramentas de desenvolvimento low-code estariam fora dos departamentos formais de TI — contra 60% em 2021. Estamos em 2026. E isso foi projetado antes de as LLMs colocarem um desenvolvedor de plantão dentro do navegador de qualquer analista.

O que está acontecendo agora

Cada vez mais gente está “vibe-codando”. Passando horas gastando tokens e mais tokens, criando aplicações, workflows,  gentes, web apps, dashboards, HTML. Entendendo o que é um JSON, um MD. Esbarrando em React, Tailwind, Java.

Eu sei — você pode trazer todos os argumentos para me dizer o quão crítico isso pode ser. Você certamente tem uma ótima defesa sobre os riscos, e você provavelmente está certo. Esse não é o ponto.

O ponto é que a gente se acostumou com TI sendo o Olimpo: uma área muitas vezes intocada, que pelo seu repertório sempre esteve distante dos outros times. O que ela falava era lei. “Esse projeto vai custar milhões e levar meses” — e ninguém conseguia rebater. Ninguém. A gente só acatava. Se estava certo, se estava errado, se estava eficiente, se estava lento: dentro de qualquer empresa, ninguém tinha repertório
suficiente para confrontar com propriedade.

Agora note quem está do outro lado da mesa hoje.

Analistas de negócio, de jurídico, de marketing, de finanças. Especialistas. E não só eles — vejo gerentes, gerentes executivos, mentoro diretores e vice-presidentes que estão codando. Com IA, com todas as ressalvas, mas estão codando.

Estão descobrindo o que é um banco de dados. O que é qualidade de código. O que faz uma API, um MCP, um RAG. Estão esbarrando em integrações, dependências, arquitetura, microsserviços, monitoria, observabilidade. Webhook. GET, POST. Estão aumentando rápido e fundo o conhecimento em uma área que até ontem lhes era completamente inacessível.

E o que boa parte de TI está fazendo? O que eu mais tenho ouvido são times que negam a tecnologia. Times que se recusam a acreditar que uma IA de US$ 20 por mês já pode ser mais rápida e mais eficiente do que aquilo que eles levaram duas décadas e anos de faculdade para aprender a construir.

A conta que ninguém fez ainda

Os times de negócio estão ficando mais técnicos. Estão ampliando repertório e horizonte de discussão a ponto de, muito em breve, sustentarem uma conversa de fato técnica com TI. Já os times de TI tendem a ficar obsoletos se não começarem a ficar mais de negócio — se não entrarem nas zonas de conhecimento que antes não lhes pertenciam e que agora a IA também abriu para eles, do mesmo jeito que o
negócio entrou na deles sem pedir licença.

E isso precisa acontecer rápido. Agora. Porque os times de TI do futuro vão ter que sustentar mais demanda de negócio, não menos. Aquele aplicativo do time de marketing, aquele dashboard de finanças, aquele workflow novo do jurídico — todos criados com IA — jamais existiriam
sem as LLMs. As esteiras legadas de priorização de projetos nunca os qualificariam frente a outras dores da operação. Mas, como são desenvolvimentos técnicos de verdade, precisam de segurança, de governança e de sustentação por quem realmente conhece.

O Work Trend Index 2026, da Microsoft — 20 mil profissionais em 10 países —, mostra onde o gargalo real está: fatores organizacionais pesam mais de duas vezes o impacto da própria IA nos resultados (67% contra 32%). Não é a tecnologia que trava. É o desenho da organização em volta dela.

E o retrato do Brasil no mesmo estudo é quase um diagnóstico clínico do que estou descrevendo: 79% dos profissionais brasileiros demonstram preocupação em ficar para trás, 40% preferem manter o foco nas metas atuais e apenas 16% dizem ser recompensados por reinventar o próprio trabalho com IA.

Ou seja: a maioria sente o chão se mexendo, uma parte enorme decide não olhar, e quase ninguém é premiado por olhar. Esse é exatamente o solo em que um "departamento de informática" nasce — não por incompetência técnica, mas por incentivo organizacional.

O que eu quero ver

Meu ponto é este: eu quero ver um time de TI totalmente reinventado.

Com desenvolvedores que encontrem erros em fórmulas de finanças. Que desafiem precificação. Que sejam propositivos em produtos novos. Que sejam mais nexialistas — que ampliem o repertório de atuação em favor de mais negócio e mais resultado para a empresa.

Do contrário, a gente está prestes a assistir a uma nova era de “departamento de informática” dentro de TI. E, dessa vez, quem vai escrever a ata não é o CIO. São os analistas que aprenderam a construir sozinhos.

A pergunta, no fim, não é se TI virou o novo departamento de informática. É quem, na sua empresa, vai perceber isso primeiro — e o que vai fazer com a vantagem de ter percebido.

Thiago Otto é especialista em liderança na era da inteligência artificial. Treina lideranças e times executivos de grandes empresas brasileiras a pensar, decidir e adaptar seu trabalho com IA e membro do Conselho de IA da ABIACOM.